Cirrose hepática: sintomas, causas, diagnóstico e tratamento
A cirrose não surge do dia para a noite. Ela é o estágio final de um processo de agressão contínua que transforma a estrutura do fígado e compromete sua sobrevivência, avançando sem dar sintomas óbvios por um longo período.
O impacto dessa lentidão silenciosa se reflete nos dados do DATASUS: foram mais de 47 mil mortes por cirrose hepática no Brasil entre 2019 e 2023, sendo 71% das vítimas homens na faixa dos 55 aos 74 anos.
A informação é a melhor ferramenta para interromper esse avanço. A seguir, você vai entender em detalhes o que caracteriza essa condição, as causas por trás das agressões, os primeiros sinais de alerta e as opções de tratamento.
Embora as lesões já estabelecidas não possam ser revertidas com os tratamentos atuais, tratar a causa básica a tempo é fundamental para frear o avanço dos danos.
O que é cirrose?
Na prática, a cirrose é o acúmulo de cicatrizes (fibrose) e nódulos que substituem o tecido hepático saudável após repetidos ciclos de inflamação. Esse processo altera permanentemente a anatomia do órgão e bloqueia o fluxo de sangue e nutrientes.
Com a arquitetura comprometida, o fígado deixa de cumprir funções cruciais, como a fabricação de proteínas, a produção de bile para digerir gorduras, o processamento de remédios e o armazenamento de vitaminas e glicose. É essa falha múltipla que faz a cirrose impactar praticamente todo o organismo.
Principais tipos de cirrose
A cirrose costuma ser classificada de acordo com a causa que originou a inflamação crônica do fígado. Conhecer essas diferenças ajuda a entender por que a prevenção e o tratamento variam de pessoa para pessoa.
Cirrose alcoólica
Relacionada ao consumo excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas, geralmente ao longo de vários anos. Quando o álcool é metabolizado no fígado, gera substâncias tóxicas que, em uso repetido, provocam inflamação e, depois, cicatrizes.
Vale destacar que mulheres tendem a ser mais suscetíveis a esse tipo de lesão do que homens, mesmo com quantidades menores de álcool, principalmente por diferenças na forma como o organismo feminino metaboliza a substância.
Cirrose por hepatites virais
As hepatites B e C, quando não tratadas, podem se tornar infecções crônicas e, ao longo dos anos, levar à cirrose. A vacinação contra a hepatite B e o uso de preservativo em todas as relações sexuais são medidas importantes de prevenção.
Cirrose associada a esteatose hepática (gordura no fígado)
O acúmulo de gordura no fígado, é uma causa cada vez mais frequente de cirrose. Está associada a obesidade, diabetes tipo 2, colesterol alterado e resistência à insulina.
Cirrose biliar
Nesse tipo, o problema começa nos ductos biliares os canais que levam a bile do fígado até o intestino. Pode ter origem autoimune (o próprio sistema de defesa do corpo ataca os ductos biliares) e está associada a outras condições autoimunes, como tireoidite de Hashimoto e artrite reumatoide.
Outras causas
Uso prolongado de determinados medicamentos sem orientação médica, doenças genéticas como a doença de Wilson e a hemocromatose, e alterações vasculares do fígado, como a síndrome de Budd-Chiari, também podem levar à cirrose. Em cerca de 3 em cada 10 casos, segundo a literatura médica, a causa não é totalmente identificada — o que se chama de cirrose criptogênica.
Cirrose compensada e descompensada: por que essa diferença importa

Um ponto que ajuda a entender a cirrose é saber que ela evolui em estágios, e não é uma condição única e fixa.
Na fase compensada, o fígado ainda consegue exercer boa parte de suas funções, mesmo já tendo cicatrizes. É comum não haver sintomas nessa fase, e a expectativa de vida costuma ser bastante próxima da de uma pessoa sem a doença, especialmente quando a causa é tratada.
Já a fase descompensada começa quando surgem complicações como acúmulo de líquido no abdômen (ascite), sangramento por varizes ou confusão mental (encefalopatia hepática). Nesse estágio, o acompanhamento médico se torna ainda mais frequente, e o prognóstico muda bastante em relação à fase compensada, o que reforça por que identificar e tratar a causa cedo faz tanta diferença.
Por trás dessa transição está principalmente a hipertensão portal — um aumento da pressão nas veias que levam sangue ao fígado, consequência das cicatrizes que dificultam a circulação normal pelo órgão. É esse mecanismo que costuma explicar o surgimento das principais complicações da cirrose.
Quais são os sintomas da cirrose?
Nos estágios iniciais, a cirrose costuma não apresentar sintomaas, por isso é chamada de doença silenciosa. É comum que os primeiros sinais só apareçam quando a doença já está mais avançada, o que reforça a importância de exames de rotina, principalmente para quem tem fatores de risco conhecidos.
Entre os sinais e sintomas mais associados à cirrose estão:
- Cansaço e fraqueza persistentes
- Falta de apetite e perda de peso
- Náuseas frequentes
- Dor ou desconforto abdominal
- Pele e olhos amarelados (icterícia)
- Urina mais escura que o habitual
- Inchaço nas pernas ou no abdômen (edema e ascite)
- Coceira na pele
- Facilidade para ter hematomas ou sangramentos
Em fases mais avançadas, pode ocorrer a encefalopatia hepática, uma condição em que o mau funcionamento do fígado provoca alterações no funcionamento cerebral, como confusão mental e mudanças de comportamento. Esse quadro exige atenção médica imediata.
Causas e fatores de risco
As causas mais associadas à cirrose no Brasil e no mundo são:
- Consumo excessivo de álcool
- Hepatites virais B e C
- Esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado)
No Brasil, cerca de 48% das mortes por cirrose estão relacionadas ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas, segundo estudo da Revista Brasileira de Epidemiologia.
Esse perfil vem mudando: hoje, a maioria dos novos casos está ligada à gordura no fígado e ao álcool, já que a hepatite C se tornou uma infecção curável com o avanço dos antivirais. Vale lembrar que esse dado é de levantamentos internacionais e pode não refletir exatamente a realidade brasileira.
Também aumentam o risco:
- Obesidade e diabetes tipo 2
- Uso prolongado de medicamentos sem orientação médica
- Doenças autoimunes
- Predisposição genética
- Tabagismo associado ao consumo de álcool
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito pelo gastroenterologista ou pelo hepatologista, médico especialista em fígado. Para chegar à conclusão, o médico costuma avaliar:
- Histórico de saúde — hábitos, uso de álcool, doenças prévias
- Exames de sangue — mostram como o fígado, os rins e a coagulação estão funcionando
- Exames de imagem — ultrassom, tomografia ou ressonância
- Elastografia — um tipo de ultrassom que mede a “dureza” do fígado, sem precisar de biópsia
Como a cirrose costuma não dar sintomas no início, muita gente só descobre a doença quando ela já está mais avançada. Por isso, fazer exames de rotina é a melhor forma de identificar o problema cedo.
Cirrose tem tratamento?
A cirrose ainda não tem cura, mas tem tratamento. O objetivo principal é impedir que a doença avance e tratar suas complicações, já que as lesões já formadas no fígado não podem ser revertidas.
O tratamento é individualizado e depende da causa identificada:
- Quando associada ao álcool, a abstinência completa é a medida mais importante
- Nos casos de hepatite viral, existe tratamento específico para controlar ou eliminar a infecção
- Quando ligada à esteatose hepática, o controle do peso, do diabetes e do colesterol faz parte do cuidado
- Mudanças na alimentação, com orientação de um nutricionista, costumam ser recomendadas, geralmente reduzindo o sal e fracionando as refeições ao longo do dia
- Medicamentos podem ser usados para tratar sintomas e complicações específicas
Nos casos mais avançados, quando o fígado já não consegue mais desempenhar suas funções, o transplante hepático pode ser a alternativa indicada. Antes da cirurgia, o paciente passa por uma avaliação completa para determinar se é candidato ao procedimento.
Possíveis complicações
Quando a cirrose evolui para a fase descompensada, algumas complicações se tornam mais frequentes. Conhecê-las ajuda a entender por que o acompanhamento médico regular é tão importante, mesmo quando a pessoa se sente bem.
Ascite (líquido no abdômen). É identificada por ultrassonografia e costuma ser controlada com redução do sal na alimentação e, quando necessário, medicamentos diuréticos prescritos pelo médico.
Peritonite bacteriana espontânea. É uma infecção do líquido acumulado no abdômen. Como pode não causar sintomas evidentes em parte dos casos, pessoas com cirrose e ascite internadas costumam passar por uma avaliação específica desse líquido para descartar a infecção.
Varizes e sangramento digestivo. As varizes se formam por causa da hipertensão portal e podem ser identificadas por endoscopia. Quando há risco de sangramento, o médico pode indicar medicamentos que ajudam a reduzir a pressão nas veias do sistema digestivo.
Encefalopatia hepática. Já mencionada entre os sintomas, é avaliada por critérios clínicos que vão de graus mais leves a mais graves, e o tratamento costuma incluir medicamentos que ajudam a reduzir a absorção de toxinas pelo intestino.
Síndrome hepatorrenal. Ocorre quando a função dos rins também é afetada pela cirrose avançada, exigindo acompanhamento hospitalar especializado.
Carcinoma hepatocelular (câncer de fígado). Pessoas com cirrose têm risco aumentado de desenvolver esse tipo de câncer ao longo do tempo, por isso costuma ser recomendado o rastreamento periódico por ultrassonografia, geralmente a cada seis meses, conforme orientação médica.
Quando procurar atendimento médico
Vale buscar avaliação médica diante de:
- Cansaço persistente sem causa aparente
- Pele ou olhos amarelados
- Inchaço abdominal ou nas pernas que não melhora
- Confusão mental ou mudanças de comportamento
- Vômito ou fezes com sangue
Pessoas com fatores de risco conhecidos, como consumo frequente de álcool, hepatite B ou C, obesidade ou diabetes, também se beneficiam de exames de rotina, mesmo sem sintomas.
Perguntas frequentes
Cirrose tem cura?
Não existe cura para as lesões já formadas no fígado, mas o tratamento pode impedir a progressão da doença na maioria dos casos, principalmente quando a causa é identificada e controlada precocemente.
Só quem bebe muito pode ter cirrose?
Não. O álcool é uma das principais causas, mas hepatites virais, esteatose hepática (gordura no fígado), doenças autoimunes e genéticas também podem levar à cirrose, mesmo em pessoas que não consomem álcool.
A cirrose sempre dá sintomas?
Não necessariamente. Nas fases iniciais, é comum que a doença não cause sintomas perceptíveis, o que reforça a importância dos exames de rotina para quem tem fatores de risco.
Qual médico trata a cirrose?
O acompanhamento costuma ser feito por um gastroenterologista ou por um hepatologista, especialista dedicado às doenças do fígado.
Transplante de fígado é a única solução?
Não. O transplante é indicado apenas para casos mais avançados, quando o fígado já não consegue mais exercer suas funções. Na maioria das vezes, o tratamento da causa e o acompanhamento médico regular já ajudam a controlar a doença.
O que significa cirrose compensada e descompensada?
Compensada é a fase em que o fígado, mesmo com cicatrizes, ainda consegue exercer boa parte de suas funções, geralmente sem sintomas. Descompensada é a fase em que surgem complicações, como ascite ou encefalopatia hepática, e exige acompanhamento médico mais próximo.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) – Cirrose e suas Complicações
- Ministério da Saúde — Cirrose (hepática, biliar, alcoólica): o que é? Tem cura?
- Mortalidade por cirrose, câncer hepático e transtornos devidos ao uso de álcool: Carga Global de Doenças no Brasil, 1990 e 2015 — Revista Brasileira de Epidemiologia
- Análise demográfica e epidemiológica de óbito por cirrose hepática no Brasil (2019–2023) — dados do SIM/DATASUS
- Ginès P, Krag A, Abraldes JG, et al. Liver Cirrhosis. The Lancet, 2021.
- Tapper EB, Parikh ND. Diagnosis and Management of Cirrhosis and Its Complications. JAMA, 2023.
- Kaplan DE, Ripoll C, Thiele M, et al. AASLD Practice Guidance on Risk Stratification and Management of Portal Hypertension and Varices in Cirrhosis. Hepatology, 2024.
- Smith A, Baumgartner K, Bositis C. Cirrhosis: Diagnosis and Management. American Family Physician, 2019.
- Mayo Clinic — Cirrhosis
Meu esposo está sendo acompanhado por um clinico e o médico disse nos últimos exames que meu esposo está com principio de cirrose e também início de diabete. O médico passou mais uns exames e falou para ele fazer dieta e se consultar com uma nutricionista mas meu esposo não para de beber.
Olá Vera!
Com este quadro parar de ingerir alcool é crucial para a recuperação!
Acho que seria bom divulgar mais imagens e vídeos da região da barriga e umbigo de casos avançados de cirrose; para as pessoas verem como é horrivel a situação e assim se cuidarem o quanto antes. Um abraço!
Olá, Nielsen! Agradecemos imansamente a sua sugestão! ??
Gostaria de saber mais.grata
Tenho cirrose muitos remédios que tomei, foi um medico do dr. Consulta que descobriu meu problema, dr. Gustavo. Já faz um ano e meio que trato com ele, a alimentação é o principal metodo para poder se viver melhor acompanhamento de nutricionista.
[…] cirrose hepática – alterações estruturais da região pelo consumo excessivo de álcool ou hepatites crônicas; […]
Srs…Não há meio termo. principalmente para que já passou dos 40.
Tem que para imediatamente de consumir álcool, em qualquer nível. E cair drasticamente o consumo de gorduras saturadas…Sugestão; vida ultra saudável de segunda a sexta,e levemente comer alguma bobagem no sábado e domingo( coisa leve) e zeroooooo Álcool…Assim talvez, vamos viver mais um pouco…Não muito, só mais um pouco e sem vomitar sangue até a morte!!! Boa sorte a todos!!!! E vida que segue!!!
[…] condições hepáticas, por exemplo, na doença hepática gordurosa não alcoólica, que pode evoluir para cirrose; […]