Entenda o que define o transtorno de estresse pós-traumático

Todo mundo está sujeito a fatalidades que despertam emoções ruins, como medo e angústia. No entanto, esses desconfortos tendem a ser passageiros e se transformam em uma lembrança desagradável. Isso é totalmente diferente do que ocorre no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Nesses casos, a pessoa afetada passa a ter uma série de sinais e sintomas associados à experiência indesejada, tentando desviar de situações similares ou mesmo de possíveis memórias do ocorrido. A partir disso, pode ser desafiador seguir em frente e retomar uma rotina tranquila e produtiva, o que compromete profundamente a qualidade de vida.
As características centrais do transtorno de estresse pós-traumático
A amplitude de experiências negativas que se pode atravessar durante a vida é bem grande. Elas englobam principalmente circunstâncias de isolamento, abandono, violência ou desastres naturais. Em resumo, tudo que inclui uma ameaça à integridade física ou mental pode entrar na lista.
Em muitos casos, só presenciar tal tipo de situação ou ter notícia de que algum ente querido foi alvo de algo neste sentido já pode causar um impacto psicológico bastante profundo.
Diante de tais circunstâncias, a maioria das pessoas nota uma série de alterações associadas a sentimentos de tristeza, ansiedade e sintomas físicos, como insônia e tremores. Apesar de tudo, isso tende a desaparecer com o passar da vida.
Mas nem todos os expostos a um trauma se recuperam da mesma maneira. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70% da população mundial passará por um evento com potencial de se transformar em um episódio estressor traumático.
Contudo, aproximadamente 5% desse total desenvolverá o TEPT. Tal variação na resposta pode ocorrer por uma série de fatores. Alguns deles passam pelo histórico individual, o gênero, a idade e as características temperamentais de cada pessoa.
Além disso, o desfecho pode variar conforme a gravidade da agressão e a obtenção do apoio social necessário depois que ela acontece.
O transtorno do estresse pós-traumático complexo
Menos conhecido, essa é uma categoria do TEPT que se desenvolve após contato prolongado com determinados eventos, especialmente os de natureza interpessoal dos quais é difícil ou impossível escapar (abuso e relacionamentos tóxicos, por exemplo).
Ao lado dos traços típicos, o transtorno do estresse pós-traumático complexo causa distorções profundas na regulação emocional, na consciência e na autopercepção, gerando desafios significativos em conexões sociais e uma perda fundamental do senso de segurança e de confiança.
Os sintomas que mais chamam a atenção nesse quadro
Grande parte das manifestações desse quadro clínico evolui em até poucas semanas depois do contato, testemunho ou notícia traumática envolvendo alguém próximo.
Como o conjunto de modificações é relativamente extenso, elas são divididas em grupos, o que facilita a compreensão do que precisa ser observado diante da suspeita do transtorno.
Alterações relacionadas a lembranças intrusivas
O indivíduo passa a revisitar a situação de diferentes formas. Isso normalmente se dá por:
- memórias involuntárias e angustiantes do evento negativo;
- pesadelos recorrentes relacionados ao acontecido;
- flashbacks (a pessoa sente como se estivesse acontecendo tudo de novo);
- forte desconforto ao encontrar algo que lembre o trauma (às vezes, apenas uma luz ou aroma);
- presença de reações físicas intensas (como respiração ofegante ou batimentos cardíacos acelerados).
Comportamentos de evitação
Em paralelo, o desconforto pode ser tão intenso que começa a haver espaço para ações voltadas a contornar uma nova exposição ao gatilho (ex.: não sair de casa, manter-se isolado etc.).
Com isso, é possível também que sejam contidos pensamentos e sentimentos conectados a locais ou personagens que possam disparar tais recordações.
Disfunções de humor
O trauma pode desencadear mudanças significativas na forma como a pessoa pensa e se sente no dia a dia, gerando:
- dificuldade para lembrar aspectos importantes do evento;
- ideias negativas persistentes sobre si, outros ou o mundo;
- sensação constante de culpa, medo ou vergonha;
- perda de interesse em atividades antes prazerosas;
- distanciamento das outras pessoas;
- incapacidade de sentir emoções positivas.
Adicionalmente, pode haver dissociação, em que há frequentes episódios de despersonalização (sentir-se separado do corpo) e desrealização (achar que o ambiente ao redor não é real).A maioria dos sintomas listados acima deve se fazer presente por, pelo menos, um mês. Em casos específicos, o comprometimento é postergado e só aparece mais de seis meses após o trauma.
O TEPT em crianças
O transtorno de estresse pós-traumático não é exclusividade dos adultos. Porém, naqueles abaixo dos seis anos, é provável que algumas particularidades se destaquem. As mais sobressalentes envolvem:
- expressão do trauma em brincadeiras;
- pesadelos que não têm conteúdo claramente relacionado ao estressor;
- flutuações significativas nas interações afetivas (aumentar o apego aos cuidadores, por exemplo).
O processo de diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumático
A confirmação depende principalmente da atuação de psiquiatras e/ou psicólogos. Esses profissionais contam com questionários e escalas que permitem, a partir do relato do atendido, checar se sua queixa é compatível com o TEPT.
A interação entre o responsável pelo acolhimento e quem procura ajuda exige sensibilidade adicional, sobretudo para que não haja uma revitimização ou exploração desnecessária do ocorrido.
No progresso da avaliação, o profissional dedica atenção ainda para entender se as disfunções não são mais bem explicadas por transtornos depressivos ou ansiosos.
Ocasionalmente, pode existir um diagnóstico simultâneo do TEPT e de outro distúrbio de saúde mental (o que é classificado como comorbidades), exigindo atenção apropriada para tratar todas as queixas.
Alguém com TEPT pode conviver com os efeitos psicológicos por meses ou anos, nem sempre com o suporte exigido.
As alternativas de tratamento disponíveis atualmente

Um estudo feito com moradores da periferia de São Paulo mostrou que esse transtorno pode ser negligenciado no atendimento primário. Entretanto, o atraso no início do apoio qualificado impede uma oferta de resultados melhores.
A abordagem indicada envolve o uso de medicamentos (ansiolíticos ou antidepressivos), sessões de psicoterapia ou uma combinação de ambos. Essa última opção acaba sendo a alternativa mais efetiva em boa parte dos cenários.
Os remédios, prescritos pelo psiquiatra, têm como foco o controle do desconforto que prejudica o cotidiano. Eles podem causar efeitos colaterais e demorar certo tempo para colaborar no avanço positivo, então a manutenção do acompanhamento é indispensável.
Já a psicoterapia tem como tarefa remodelar as memórias e reorganizar os padrões de pensamento. Determinadas terapias de exposição, nas quais os gatilhos para o trauma são experienciados novamente de maneira controlada, são frequentemente utilizadas.
Terapias em grupo, em que os afetados por casos semelhantes compartilham aquilo que viveram, também parecem ajudar.
Em complemento, mudanças no estilo de vida devem ser sempre incentivadas. Entre recomendações e hábitos que fazem a diferença estão:
- manter uma rotina diária normal, dentro do viável;
- conversar sobre o fato com aqueles mais próximos, mas apenas quando existir um conforto mínimo para tal;
- evitar ou reduzir o consumo de álcool e outras substâncias;
- praticar exercícios físicos regularmente (mesmo uma caminhada curta);
- investir em um sono saudável;
- controlar a tensão com técnicas de respiração, meditação e relaxamento muscular progressivo.
A recuperação do transtorno de estresse pós-traumático é gradual e a condição pode se tornar crônica. Ainda assim, a assistência adequada previne recaídas e outras consequências de tal quadro de saúde mental.
Fontes:
[…] transtorno de estresse pós-traumático e demais associados a experiências de estresse intenso; […]