Síndrome de HELLP na Gestação: Sintomas e Cuidados
A gravidez costuma ser cercada de expectativa e cuidado, e boa parte da segurança desse período vem do acompanhamento médico regular. Entre as complicações que podem surgir, uma das menos conhecidas, mas que merece atenção, é a síndrome de HELLP. Ela está diretamente ligada à pré-eclâmpsia e, quando identificada cedo, costuma ser conduzida de forma muito mais segura, tanto para a gestante quanto para o bebê.
Neste conteúdo, você vai entender o que caracteriza a síndrome de HELLP, quais sinais merecem atenção, como o diagnóstico é feito, o que a ciência já sabe sobre suas causas e por que o pré-natal continua sendo a principal ferramenta de proteção nesses casos.
O que é a síndrome de HELLP
A síndrome de HELLP é uma complicação da gravidez, geralmente considerada uma forma grave de pré-eclâmpsia, que afeta o sangue e o fígado da gestante. O nome vem das iniciais em inglês dos três achados que a definem: destruição de células sanguíneas, alteração nas enzimas do fígado e queda no número de plaquetas.
A pré-eclâmpsia é um quadro de pressão arterial elevada associado, na maioria das vezes, à presença de proteína na urina — sinal de que os rins estão sendo sobrecarregados. No entanto, um dado importante merece destaque: segundo o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG), entre 15% e 20% das pessoas com síndrome de HELLP podem apresentar pressão arterial normal e ausência de proteína na urina, o que torna o quadro mais difícil de reconhecer só pelos sinais clássicos de pré-eclâmpsia. Por isso, sintomas como mal-estar e dor abdominal alta merecem sempre ser levados a sério durante a gestação, mesmo sem pressão alta evidente.
A sigla HELLP resume as três alterações principais:
- H (Hemolytic anemia): hemólise, ou seja, a destruição precoce das células vermelhas do sangue.
- EL (Elevated Liver enzymes): elevação das enzimas do fígado, indicando que o órgão está sendo afetado.
- LP (Low Platelet count): redução do número de plaquetas, o que compromete a coagulação sanguínea.
A maior parte dos casos é identificada durante o terceiro trimestre, mas um ponto que costuma surpreender é que até 30% das vezes o quadro aparece ou piora somente depois do parto. Esse é um dos motivos pelos quais o acompanhamento médico continua importante no pós-parto imediato, e não apenas durante a gestação.
Por que a síndrome de HELLP acontece
A causa exata ainda não é totalmente compreendida, mas estudos recentes ajudam a entender o mecanismo por trás do quadro. De forma simplificada: quando a placenta não recebe irrigação sanguínea adequada, isso pode desencadear uma disfunção nos vasos sanguíneos da gestante, levando ao acúmulo de pequenos depósitos de fibrina (uma proteína ligada à coagulação) dentro do fígado. Esse processo é o que provoca a destruição das células do sangue e a sobrecarga do órgão.
Alguns fatores parecem aumentar a probabilidade de o quadro aparecer, como:
- histórico pessoal ou familiar de hipertensão, diabetes ou pré-eclâmpsia;
- gestações em idade muito jovem ou mais tardia;
- primeira gravidez.
Ter algum desses fatores não significa que a síndrome vai necessariamente ocorrer, significa apenas que o acompanhamento pré-natal deve ser ainda mais atento. Conversar abertamente com o obstetra sobre o histórico de saúde ajuda a personalizar os cuidados durante a gestação.
Sintomas mais comuns da síndrome de HELLP
Os sinais podem variar de pessoa para pessoa, mas alguns são bastante frequentes. Dor na parte alta do abdômen (geralmente do lado direito ou na “boca do estômago”) acompanhada de mal-estar geral está presente em até 90% dos casos, segundo estudos publicados em revistas de hepatologia e gastroenterologia. Náuseas e vômitos aparecem em cerca de metade das gestantes com o quadro. Em alguns casos, no entanto, a síndrome pode se manifestar de forma mais discreta, sem sintomas evidentes — o que reforça a importância dos exames de rotina do pré-natal.
Outros sinais que merecem atenção incluem:
- dor de cabeça persistente, que não melhora com analgésicos comuns;
- cansaço intenso e mal-estar geral;
- alterações na visão, como manchas ou visão embaçada;
- sangramentos, como sangramento nasal sem causa aparente;
- inchaço que surge ou piora rapidamente.
Se algum desses sintomas aparecer, o mais importante é não tentar se automedicar e buscar avaliação médica. Só um profissional pode investigar a causa com segurança e indicar os próximos passos.
Como é feito o diagnóstico
A identificação da síndrome de HELLP é sempre clínica e laboratorial, feita por um médico. O diagnóstico costuma se basear em três grupos de exames de sangue, que avaliam justamente os três aspectos que dão nome à síndrome:
- Sinais de destruição das células do sangue, avaliados por meio de um exame chamado LDH (desidrogenase láctica) e da observação da forma das células no sangue.
- Função do fígado, medida pelas transaminases hepáticas (as enzimas AST e ALT), que costumam estar elevadas.
- Contagem de plaquetas, que tende a estar reduzida.
Durante o acompanhamento hospitalar, esses exames costumam ser repetidos com frequência — muitas vezes a cada 12 horas — porque os valores podem mudar rapidamente. Em fases de piora, a contagem de plaquetas pode cair de forma expressiva de um dia para o outro, enquanto as enzimas do fígado sobem. Por isso o monitoramento próximo, geralmente em ambiente hospitalar, é tão relevante nesse período.
Tratamento da síndrome de HELLP
O parto é o tratamento definitivo, pois interrompe a progressão do quadro. O momento ideal é decidido pela equipe médica junto à gestante, considerando idade gestacional, gravidade dos sintomas e exames.
Perto do fim da gestação, geralmente se parte para o parto após estabilizar a paciente. Em fases mais precoces, pode-se aguardar até 48h para administrar medicação que amadureça os pulmões do bebê, avaliando riscos e benefícios caso a caso, tema ainda debatido entre especialistas.
Outros cuidados hospitalares incluem:
- medicação anticonvulsivante;
- controle rigoroso da pressão arterial;
- avaliação de imagem do fígado (ultrassom, tomografia ou ressonância) se houver suspeita de complicações hepáticas;
- transfusão de plaquetas ou outros hemocomponentes quando indicado, especialmente antes de cesárea.
Possíveis complicações quando o quadro não é acompanhado
A grande maioria das gestantes com síndrome de HELLP identificada e conduzida a tempo tem uma evolução mais controlada — e é justamente por isso que o acompanhamento médico regular é tão importante: ele permite agir antes que o quadro avance.
Quando não identificado a tempo, o processo no fígado pode evoluir, em uma parcela dos casos, para complicações mais sérias, como hematoma ou sangramento no próprio fígado, alterações na coagulação do sangue, comprometimento da função dos rins e descolamento da placenta. Estudos internacionais também apontam a síndrome de HELLP como associada a maior risco à vida da gestante em comparação a gestações sem essa complicação, o que reforça — mais uma vez — por que sintomas persistentes na gravidez nunca devem ser ignorados.

Vale reforçar: esses números representam uma parte dos casos, geralmente ligada a diagnósticos tardios, e não a regra. A forma mais eficaz de reduzir esse risco continua sendo o diagnóstico precoce, feito pelo pré-natal.
Quando procurar atendimento médico
Vale buscar avaliação médica com urgência sempre que surgirem sintomas como dor de cabeça forte e contínua, alterações na visão, dor abdominal alta, sangramentos incomuns ou inchaço súbito, inclusive nos primeiros dias após o parto, já que, como vimos, o quadro também pode surgir nesse período. Na dúvida, o mais seguro é sempre procurar a maternidade ou o pronto-atendimento de referência.
É possível engravidar novamente depois de ter tido HELLP?
Sim. Ter tido a síndrome de HELLP em uma gestação não impede uma gravidez futura. O recomendado é que a próxima gestação seja planejada com acompanhamento médico desde o início, para que o histórico seja levado em conta e os cuidados sejam ajustados conforme a necessidade.
Perguntas frequentes sobre a síndrome de HELLP
A síndrome de HELLP é a mesma coisa que pré-eclâmpsia? Não exatamente. A pré-eclâmpsia é caracterizada por pressão alta e, geralmente, proteína na urina durante a gestação. A síndrome de HELLP é considerada uma forma grave desse quadro, envolvendo também alterações no sangue e no fígado — e pode ocorrer mesmo quando a pressão arterial está dentro do esperado.
A síndrome de HELLP sempre acontece junto com pressão alta? Não necessariamente. Estudos indicam que entre 15% e 20% das gestantes com síndrome de HELLP podem ter pressão arterial normal e ausência de proteína na urina, o que torna os demais sintomas — como dor abdominal e mal-estar — ainda mais importantes de observar.
A síndrome de HELLP pode aparecer depois do parto? Sim. Uma parte relevante dos casos, cerca de 30%, surge ou se agrava justamente no período pós-parto. Por isso os sintomas devem continuar sendo observados mesmo depois do nascimento do bebê.
Corticoides tratam a síndrome de HELLP? As evidências científicas atuais, incluindo uma revisão da Cochrane, não mostram benefício claro do uso de corticoides para reduzir complicações graves da síndrome de HELLP. O tratamento definitivo continua sendo o parto, sempre orientado pela equipe médica.
Toda gestante com pressão alta vai desenvolver a síndrome de HELLP? Não. A hipertensão na gestação é um fator de atenção, mas a maioria das gestantes com pressão alta não desenvolve a síndrome de HELLP. Por isso o acompanhamento médico é importante: ele ajuda a identificar precocemente qualquer sinal de agravamento.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado.
- Boletim de Prática nº 222 sobre Hipertensão Gestacional e Pré-eclâmpsia – ACOG (2020)
- Gravidez e o Fígado – revisão publicada na revista Lancet (2025)
- Doença Hepática Durante a Gravidez – American Journal of Gastroenterology (2022)
- Distúrbios Hipertensivos da Gravidez – American Family Physician (2024, texto completo gratuito)
[…] síndrome de HELLP: na qual ocorre a destruição das células do sangue, elevação das enzimas do fígado e baixa contagem de plaquetas (responsáveis por atuar na coagulação e cicatrização); […]